Resenha: Ed Motta (2018) Criterion of the Senses

By Marcelo Donati - 9/21/2018 05:32:00 PM

Ed Motta volta aos caminhos ensolarados do AOR
Marcelo Donati, Setembro de 2018.


Em Criterion of the Senses (2018, MustHave/Membran), o compositor, cantor e multi-instrumentista Ed Motta retoma parte do estilo luminoso do disco AOR (2013), apresentando temas que transitam entre o Pop Soul e o Westcoast bem elaborado, com pitadas de disco funk e fusion, sem no entanto abandonar totalmente a veia jazzística registrada no álbum anterior, ‘Perpetual Gateways’ (2016, MustHave/Membran). Com exótica capa e arte feitas pela artista Edna Lopes, o disco traz 8 músicas, e no Brasil será lançado somente em aplicativos e sites de streaming (Spotify, Apple Music, Google Play). Portanto, para obter a edição física (CD ou LP) do novo disco do Colosso do Rio (como Ed é chamado lá fora), será preciso recorrer aos sites internacionais. O lançamento oficial é dia 21 de setembro.

As impressões gerais de cada música:

Lost Connection to Prague
A faixa de abertura cita Kafka num discurso sobre uma viagem mal sucedida para Praga.
Musicalmente, traz lembranças do som levemente quente, vintage e sem muita compressão do disco Chapter 9, com teclados fazendo camadas como arranjos de cordas (todos tocados por Ed), desaguando num solo ‘torto’ do guitarrista Thiago Arruda. 

Sweetest Berry
Mais animada, exalando um clima AOR City Pop, com uma estrutura vocal chiclete, ‘Sweetest Berry’ tem potencial para ser single do álbum. A guitarra de Ed com palm mute, o baixo de Paulo Cesar Barros fazendo slides, a percussão esperta de Frank Colon, e um órgão cheio e bonito tocado por Daniel Latorre permeando os arranjos trazem um ar todo alegre para a canção. Foi a primeira música a ser apresentada ao vivo – durante o programa de TV ‘Encontro com Fátima Bernardes’ (Globo).

Novice Never Notice
O piano elétrico da introdução (tocado pelo grande Glauton Campello, R.I.P.) já entrega o clima funk/jazz/fusion da música, exponenciado pelo groove do baterista Sergio Melo e pelo clavinete de Renato Fonseca. O solo de talk box de João Castilho sedimenta o caráter setentista, lembrando de ‘Haitian Divorce’ (Steely Dan). Belos vocais em harmonia, feitos por Ed e a cantora Alma Thomas. O solo jazzístico de Rhodes do lendário Campello faz a ponte com o disco anterior de Ed, Perpetual Gateways. E aliás é uma tônica do novo disco: todas as músicas estão recheadas de solos com linguagem jazz.

The Required Dress Code
A primeira música deste disco a ser lançada oficialmente recupera o ponto iniciado no disco AOR (LAB 344, 2013), com o estilo evidenciado pela bateria firme de Sergio Melo, pelas guitarras harmonizadas de Ed e Thiago Arruda, pelo piano de Glauton Campello, e pelos contrapontos dos teclados, todos pilotados por Ed. 

X1 in Test
Ed Motta sempre reserva espaço no seu vasto baú de ideias para faixas com enredos policiais e temáticas detetivescas. “X1 in Test” segue a linha de “Fox do Detetive”, “Nicole Versus Cheng” e “Marta”. Musicalmente, começa mostrando o escaninho Westcoast AOR (com a cozinha firme de Paulo Cesar Barros e Sergio Melo), e evoluindo para um clima mais grandioso e denso, graças às guitarras e arranjos de Alexandre Carvalho, e à direção vocal grandiosa de Ed no interlúdio do tema. Já o solo de guitarra com intenção bluesy ficou a cargo de Thiago Arruda.

The Tiki’s Broken There
Talvez a música mais experimental do álbum, “The Tiki’s Broken There” tem dueto de Ed com a cantora Cidália Castro e evoca a dupla Jackie and Roy, obviamente com um viés mais profundo e contendo vocabulário mais complexo harmonicamente. Os solos de guitarra jazz de Alexandre Carvalho e de clarone (bass clarinet) do músico Ademir Junior carimbam o espírito sofisticado do tema.

Your Satisfaction Is Mine
Dialogando com “Keep On” (da banda D-Train), música que consta do repertório do show ‘Baile do Flashback’ que Ed Motta vem fazendo nos últimos anos, “Your Satisfaction Is Mine” é um regresso (tão aguardado por muitos) de Ed ao disco funk. O baixo synth e as guitarras malandras tocadas por Ed, a bateria tight, o solo synth de Michel Limma e os vocais harmonizados entre Mr. Motta e Alma Thomas reafirmam, com aplicado apuro, que Ed sabe sempre fazer música para dançar sem macular o contrato com a perfeição harmônica e o cuidado artesanal com o arranjo. Fãs de boa música pop poderiam comentar que há um quê de Michael Jackson arranjado por Quincy Jones! Talvez a última vez que Ed trilhou este caminho foi em “Pé na Jaca” (do disco Piqueninque).

Shoulder Pads
A última música do disco, “Shoulder Pads” (ombreiras em português) é uma declaração de amor irônica de Ed para o clima exagerado dos anos 80. Inspirada em Toto, a faixa, com bateria pesada de Sergio Melo, está repleta de guitarras (tocadas por Vinicius Rosa), inclusive com um solo cheio de gás. O baixo e demais instrumentos ficaram por conta do próprio Ed. A letra, lembrando vários gadgets e costumes oitentistas, como VCR (vídeo cassete), walkman, jaquetas com ombreiras e mullets, mistura as lembranças juvenis de Ed com o estilo soft rock excêntrico que permeou a década dos excessos.  


Analisando a qualidade e o tratamento de áudio de 
“Criterion of the Senses”
por Alexander Pindarov

Discos de referência:
The Power and the Glory – Gentle Giant - Blu-Ray Edition
Hotel California – The Eagles (40th Anniversary Edition) CD

Criterion of the Senses realmente chega ao que o título propõe: Aguçar os sentidos, principalmente a audição. 

Contando com uma mix equilibrada, parece um disco da Blue Note cuja masterização primorosa do Carlos Freitas me fez fazer comparar não com uma cópia em CD, que normalmente apresenta um som mais duro, mas sim com um Blu-Ray masterizado por um dos papas do momento: Steven Wilson, que também remasterizou recentemente o “This Was” do Jethro Tull.

Um dos aspectos mais interessantes da mix é a percepção estéreo com a qual Ed Motta brinca a todo momento, sem que seja irritante. Usa com parcimônia e sutileza, como de praxe. ;)

Comparei com o o CD “Hotel California” pois, mesmo sendo remasterizado pelo papa Bernie Grundman, tem uma distorção de fase irritante nos címbalos e que no disco do Ed foi muito bem resolvido.
‘Shoulder Pads’ me lembra uma música do Deep Purple e, talvez para manter a coerência sônica, não foi acometida do mal dos discos atuais, que é o excesso de volume e equalização.
Todo o disco está perfeito, sem estalos ou ruídos e a voz do Ed está bem clara, límpida sem distorções.

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